domingo, 20 de fevereiro de 2011

Coisas sem explicação

Tem coisas na vida que a gente faz e não entende por quê. Coisas que não têm explicação ou cuja explicação nos escapa por completo. Fiz muitas coisas desse tipo, mas a que mais me intriga aconteceu numa tarde de verão. Eu saí do trabalho, no centro do Rio de Janeiro, e fui para Petrópolis a pé, num percurso de mais de 70 quilômetros. Eram 14h quando saí do trabalho. Cheguei a Petrópolis às 3h, num total de 13 horas de caminhada. Só parei para beber água numa daquelas fontes à beira da estrada já na subida da serra. Conto isso agora porque já se passaram muitos anos e, como não fiz nada tão maluco desde então, corro poucos riscos de ser internado e submetido a eletrochoques e lobotomia. Isso sem falarna camida-de-força, que me apavora diante de uma eventual vontade de coçar o nariz ou de amortecer uma queda.
Meu farnel para a caminhada era esquisito: dois tabletes de Toblerone e um tubo cheio de vitamina C, de 2 gramas, da Redoxon. O lanche, pelo menos, tinha explicação: o Toblerone me parecia o mais completo dos chocolates e eu tinha lido que os alpinistas davam prioridade a alimentos concentrados,, para não carregar muito peso. Eu não ia fazer uma escalada, eu sei (não sou tão doido assim!), mas ia subir uma montanha, a quase 800 metros acima do nível do mar. E não queria carregar peso, como um frango assado, farofa, um cacho de bananas, uma garrafa de dois litros de Coca-Cola. A vitamina C era para combater o cansaço. Eu era seguidor dos ensinamentos de Linus Pauling, Prêmio Nobel que era um entusiasta da vitamina. E continuei tomando o comprimido efervescente até que, combinado com aspirina, ele abriu uma úlcera no meu duodeno, um ano mais tarde.
A primeira parte da viagem foi tranquila: vi de perto como a Avenida Brasil é feia. Depois veio a Baixada Fluminense e o medo de assalto. Já era noite e minha estratégia foi passar pelos bares mais assustadores sem olhar para o lado. Não falei com ninguém e ninguém falou comigo. O verdadeiro problema surgiu quando comecei a subir a serra. A esta altura já estava exausto e tinha uma grande ladeira pela frente. Usava roupa de trabalho: calças compridas,  camisa de mangas compridas, e sapato de couro. E uma bolsa de couro, onde costumava carregar livros, que naquele dia estava ocupada pelo chocolate e a vitamina C.
A subida da serra não tem acostamento, o que obriga andarilhos como eu era naquele dia a dividir o espaço com os veículos. Já era noite e o movimento era pequeno, mas alguns motoristas de caminhão tentaram me acertar de qualquer jeito.Nessas horas, eu me jogava no mato à beira da estrada. Comi o primeiro Toblerone na Baixada. O segundo joguei fora, porque tinha derretido e porque estava enjoado de cansaço. A vitamina C só pude tomar no alto da serra, porque não tinha levado água e na Baixada eu não podia nem olhar para o lado, quanto mais entrar num bar e pedir um copo d'água.
Estava andando como um zumbi, consciente de que se parasse não chegaria ao final da estrada, quando dei de cara com um túnel. Um túnel grande e escuro. A esta altura eu não estava mais raciocinando (como se antes da empreitada eu estivesse!) e mal conseguia colocar uma perna diante da outra. Mas o medo do escuro me fez atravessar o túnel correndo. Os morcegos que moravam lá guincharam e eu me lembrei que alguns morcegos são vampiros. Foi adrenalina deste susto que me fez percorrer os últimos quilômetros, e cheguei em casa são e salvo. O sapato acabou. A roupa, encharcada de suor, teve que ser jogada fora. Dava para lavar, mas eu não queria mais vestir aquele testemunho de um longo pesadelo.
Até hoje não sei por que fiz aquilo. A tensão estava insuportável no trabalho. A vida que eu levava não era a que eu queria. Provei para mim mesmo que podia ser determinado e suportar grandes sacrifícios. Mas foi tudo uma grande bobagem: no dia seguinte voltei à minha rotina infeliz. Eu era capaz de grandes aventuras, mas me deixei às engrenagens de sempre: necessidade de um salário no final do mês e a preocupação de não decepcionar o que esperam da gente.

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