sábado, 11 de dezembro de 2010

Histórias de gatos

Gosto de ouvir histórias de gatos. Quanto mais autista o gato, melhor. Autista no sentido de apegado à sua própria concepção de realidade. Gatos que se escondem atrás da cortina, sem ligar se o rabo ficou de fora. Ou que ficam debaixo da cama o dia inteiro, no esconderijo de sempre, que nem é mais esconderijo, uma vez que só falta bater o ponto, de tanto que o lugar faz parte de sua rotina.
Gosto também dos gatos com TOC, transtorno obsessivo compulsivo. Aqueles que só andam na quina das mesas, que fazem seu ninho numa cadeira quebrada ou em cima de um eletrodoméstico sem uso. Gatos que andam diferente, adeptos dos silly walks dos Monty Pythons. De algum modo, eles sabem que estão sendo observados, mesmo que não tenha mais ninguém no mesmo cômodo.
Gatos me lembram de como eu deveria ter sido, se tivesse me concentrado mais em mim, em vez de abrir mão do meu jeito de ser para agradar os outros. Não me entendam mal: a gente deve fazer concessões, sim, se elas forem em benefício de quem a gente ama. Mas não podemos ceder nas pequenas coisas, nas pequenas manias inofensivas que são o nosso jeito de estar no mundo.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Noites claras

Em noites claras
de lua cheia, penso
que as coisas boas
da minha vida,
aquelas que tinham
luz e magia,
foram para lá.
Coisa leves que
podiam caminhar
no prateado do
luar e ficar
por lá, brancas,
azuladas, com
poeira de estrelas
a me esperar.

Largueza do azul

Queria escrever
num cantinho do céu,
para que só fosse lida
nos dias sem nuvens,
a história do amor que
é o sol de meus dias.
Usaria a caligrafia
das andorinhas
na largueza do azul
e contaria segredos 
do seu olhar de relva
e risada de água pura,
que corre cristalina.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

O rosto no espelho

O rosto que fito no espelho
reflete você no meio sorriso
e traz um brilho que é novo.
Você está em quem eu sou
de verdade, bem lá no fundo,
nos sonhos e no jeito menino
de andar por aí maravilhado.

Perfume de jasmim

A brisa cobria
de flores
os seus cabelos
e perfumava
os meus dias
de jasmim.

Teu sorriso
de estrelas
tinha o som
da água 
que reflete
o novo dia.

Nosso amor
era melodia,
movimento
das ondas,
um céu claro
que sorria.

Verde-água

Pele de brilho
fluorescente,
de vagalume.
Perfume fugidio
sob os cabelos
de louro branco
sob a nuca.
O orvalho doce
que brotava
de seus lábios.
Minhas noites
eram claras,
verde-água,
quando você
me olhava
do travesseiro.

Teus olhos

Porque quando miro teus olhos
já não escuto ou penso nada,
vivo o instante de tua presença
como um sonho de eternidade.

Porque és todas as crianças boas,
e as mães que as cuidam alegres,
e anjos que todo o bem guardam.

A dança das palavras

Quando escrevia,
via as palavras
bailando em torno
das linhas em branco
como crianças que
brincam a dança
das cadeiras.
As que tinham ouvido
para a música e
noção de espaço
conseguiam ficar
sorrindo até o fim
e faziam a poesia.

Escrevo teu nome

Escrevo teu nome 
na aba do chapéu 
que voa na praia, 
na pétala da rosa 
escondida no mato, 
na asa da borboleta 
que rodopia no ar 
e na tua pele clara 
que o sol faz dourar.

Bom dia, amor!

Quero o raio de sol
que chega dourado
depois de refletir
em seus cabelos.

Quero o sorriso
que seus lábios
refletem num dia
de céu todo azul.

Quero o poema
que vem de você
como um beijinho
de bom dia, amor!

Como o ar

Durma com meu beijo em seus olhos,
sinta minhas mãos segurando as suas,
imagine minha voz dizendo baixinho
que vou estar aqui quando você acordar
e pense que eu te amo profundamente
como o ar que você recebe com doçura
e que lentamente faz seu peito se elevar.

Linha da vida

É no seu rosto que
percorro as linhas
mais simples da vida,
os mistérios do mar
e a imensidão azul.

É no seu rosto doce
que o mundo ri e me 
faz sentir bem-vindo.
Seu olhar me guarda,
me aceita e me guia.

É nas suas palavras
que acho conforto,
perdão e companhia.
Palavras que animam
minha alma e a vida.

Martin Cruz Smith

Se você gosta de romances policiais, faça um favor a você mesmo: leia Martin Cruz Smith. Apesar de ser o autor de uma obra-prima chamada "Parque Górki", ele não é mais publicado no Brasil. O motivo deste boicote é um mistério até mesmo para Arkady Renko, investigador que é o personagem principal dos romances de Cruz Smith. O novo título da série é "Three Stations". Um bebê desaparece e uma garota é encontrada morta num trailer a poucos metros de uma delegacia, no centro de Moscou. A partir daí, Cruz Smith conta uma história em que policiais cafetizam prostitutas, a opulenta máfia russa promove festa em que é preciso pagar 10 mil dólares só para entrar e o grosso da população se entorpece de vodka.
O bairro boêmio de Moscou virou centro comercial para ricaços e uma dondoca exige que Renko retire seu Lada da área, alegando que o carro (deve ser a Brasília amarela dos russos) é capaz de desvalorizar o preço dos imóveis de todo quarteirão em que estiver estacionado. Os serviços mais perigosos e de salários mais baixos são executados por tajiques, do Tadjiquistão, um dos países que integravam a extinta União Soviética. Os tajiques são cada vez mais numerosos na Rússia e há quem preveja que daqui a 10 anos haverá uma mesquita em cada esquina da capital. Todos os imigrantes de países pobres da antiga União Soviética são chamados pejorativamente de tajiques pelos russos, nos mesmos moldes da discriminação contra turcos na Alemanha, argelinos na França, mexicanos nos Estados Unidos e paquistaneses no Reino Unido. Para não falar nos nordestinos que no Rio e São Paulo são rotulados todos como paraíbas.
A vodka é responsável por quatro em cada cinco crimes violentos que não estejam envolvidos com execuções pagas pela máfia. Segundo Arkady Renko, "a vida seria maravilhosa sem a vodka, mas como o mundo não é uma maravilha, as pessoas precisam de vodka. A vodka está no nosso DNA". Renko tem uma teoria sobre isso: os russos são perfeccionistas. Basta ver a dedicação de enxadristas e bailarinas. As pessoas comuns são perfeccionistas em sua bebedeira, achando que o problema não é fazer com que bebam menos e sim fazer com que os outros bebam mais.
Há personagens fascinantes em "Three Stations", como o patologista Willi Pazenko, que é obeso e bebe e fuma sem parar, definindo a si mesmo como um globo humano que tem um cinto como seu equador. Willi sobreviveu a dois grandes ataques cardíacos, sofre de angina e tem uma pressão arterial capaz de levantar a tampa de um bueiro, podendo cair morto a qualquer momento. E Anna Furtseva, de 88 anos, que fez filmes durante o cerco de Stalingrado e agora fotografa tipos humanos que povoam uma das áreas mais sórdidas de Moscou, a das Três Estações, durante a madrugada. E o policial Victor Orlov, um alcoólico que ficou impressionado com a histórias dos golfinhos que tentaram afogar um banhista no litoral da Grécia, indo contra a sua índole pacífica e prestativa. Descobriu-se depois que o tal banhista era russo. Orlov acha que a história dos golfinhos ilustra bem a teoria de que tudo acontece ao contrário para os russos. Ou então o tal banhista estava bêbado e já teria tentado se afogar tantas vezes que os golfinhos resolveram fazer a sua vontade. Orlov conta outra anedota: existem tantas prostitutas russas na Itália que o novo nome lá para profissional do sexo é Natasha.

sábado, 2 de outubro de 2010

Borboletas azuis

Tua voz tem o encanto 
de mil borboletas azuis,
traçando bordados no ar.
Tua voz me fala de coisas
que o vento esqueceu,
segredos de primaveras,
cantigas de ninar sereias,
frases que murmuramos
quando nos faz falta o mar.

Doce te ver passar

Sou aquele que registra
teu olhar que se esquiva,
roupa e cabelo que ajeitas,
os saltos suspensos no ar.

São minhas as imagens
de quando pensas que
estás anônima e invisível,
protegida na multidão.

Porque amo o que tu és
quando estás solta por aí,
achando que ninguém vê
os segredos em turbilhão.

Um dia, o que vi de você
vai salvar meus sonhos
e colorir meus caminhos
com o doce te ver passar.

Vitrines

Queria te ver passar pelas ruas,
a uma esquina de meus desejos,
e seguir teu reflexo pelas vitrines,
teus passos selando meu destino,
teu corpo regendo meu coração.

Queria te ver passar pelas ruas,
tão perto que,se você se voltasse,
nossos lábios se encontrariam,
tão perto que talvez você ouvisse
eu chamar teu nome numa canção.

Brumas do tempo

Escuto a cantiga da chuva
mas é a tua voz que chega
envolta nas brumas do tempo,
com palavras cristalinas
que espalham docemente
pequenas gotas no oceano.

Beira de estrada

O amor aponta o caminho,
é companheiro de jornada,
ilumina e colore a paisagem
e acena da beira da estrada.

Amor é alimento na algibeira,
água ruidosa de cachoeira,
o destino como arco-íris
que espera depois do rio.

Amor é brisa na sombra,
um bosque de relva macia,
sopé florido da montanha
teu abraço de boas-vindas.

Música da chuva

A noite é uma viagem
que faço de olhos fechados.
Escuto a canção das estrelas
e acompanho o som dos passos
da Lua bailando em seus cabelos.

Você é a brisa da madrugada,
árvores que se abraçam no escuro
e a música da chuva inesperada
Que cobre de beijos a sua casa.

Criaturas meio hippies

As flores são criaturas
meio hippies, serenas,
que tomam banho de chuva
e passam o dia adorando o sol.

Cantam a canção do vento e
têm uma relação de paz e amor
com as borboletas e beija-flores.

Celebram a luz de cada dia
com suas vestimentas vistosas
que seguem as cores do arco-íris.

Têm um apego radical à terra
e vivem com a graça e alegria
de quem é sempre primavera.

Primavera

Primavera é a estação
em que deitas na relva
e ficas a me perguntar
os nomes das flores.
Eu olho para o céu em
busca de inspiração
e recito todos os nomes
que já ouvi, misturando
flores e passarinhos.
E você sorri encantada
e diz que sou sedutor
como sol de primavera.

Mil passarinhos

Que em meu corpo habite
o raio de sol mais brilhante,
o perfume de mil flores azuis,
e o canto de mil passarinhos.
Quero estar pronto para quando
você chegar com seu sorriso,
o carinho de mil fadas bondosas
e a alegria que faz girar o mundo.

Feitiço brilhante

Junto os lábios num beijo 
Para a luz de prata, 
as crateras cinzentas,
o dragão meio distante, 
o mar da serenidade, 
a companhia das estrelas, 
a viagem na escuridão, 
o esconderijo de São Jorge, 
naves abandonadas na areia, 
a face oculta, the dark side.
Partilho com os cães mais
doidos o ritual de uivar,
celebrar noites de lua,
feitiço brilhante que te
faz debruçar na janela
e sonhar com amores,
noites de verão na praia
e paixões na madrugada.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Confeitos de alto mar

A menina queria
uma história
que fosse doce
e que falasse
dos bichinhos
que vivem no
fundo do mar.
E gostou de
ouvir sobre os
biscoitos em
forma de estrela
que dançavam
à noite sobre
as ondas para
a sobremesa
do siri dengoso
e das sereias.

Língua estrangeira




Foram mais de mil
as noites em que você
leu para mim numa
língua estrangeira,
usando a pronúncia
que as letras sugeriam.
Minha imaginação
seguia os sons, as
palavras desconhecidas
e formava histórias,
sem qualquer sentido,
como as dos sonhos
que logo eu sonharia.

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Óóóóóóóó, disse Fernando Pessoa

Tem gente que gosta de um escritor por inteiro: romances, contos, poemas, bilhetes malcriados e até lista de compras no mercado. Acho difícil de acreditar. James Joyce, por exemplo. Para ser um intelectual respeitado, é preciso gostar de James Joyce. Li o livro de contos "Dublinenses" e gostei. Li o romance "Retrato de um artista quando jovem" e gostei. Mas, a partir daí as coisas ficaram difíceis. "Ulysses" e "Finnegans Wake" são ilegíveis. Neste último, Joyce exagerou, ao criar a palavra:
"bababadalgharaghtakamminarronnkonnbronntonnerronntuonnthunntrovarrhounawnskawntoohoohooordenenthurnuk!" Assim mesmo, com ponto de exclamação no final. Acho até que ele foi comedido na quantidade de pontos de exclamação. O que ele não teria feito, se naquela época já estivessem disponíveis os emoticons.
Fernando Pessoa é unanimidade universal. Mas quem diz que gosta de tudo que ele escreveu, inclui neste exagero alguns versos do heterônimo Álvaro de Campos que são dignos de James Joyce. Como por exemplo: óóóó---óóóóóó óóó---óóóóóóó óóóóóóóó. Ou: EH-EH-EH-EH-EH-EH-EH-EH-EH-EH-EH.
Esta longa introdução é para dizer que os gênios estão além de nossa compreensão. No futuro, estudiosos mostrarão que o sentido da vida estava naquela palavra e nestes versos. Devemos agradecer aos céus por não estarmos mais aqui para ouvir a longa e bem fundamentada explicação, nem forçar nas vistas nas profusas notas de pé de página.
O que podemos fazer de prático agora é levantar uma sobrancelha sempre que alguém disser que ama tudo que Joyce, Pessoa e outros tantos escreveram. Picasso deve ter derramado tinta sem querer na tela. Mozart deve ter feito música barulhenta só para arreliar um vizinho ou uma visita. Hitchcock deve ter feito algum curta-metragem com enredo idiota só para seduzir uma loura bonitona.
Relaxa, gente! Se os gênios cometem uma ou outra bobagem, quem sabe a gente, que não tem talento, não faz ao longo da vida, nem que seja por acaso, uma coisa genial?

Flores azuis

Que em meu corpo habitem
o raio de sol mais brilhante,
o perfume das flores azuis,
e o canto de mil passarinhos.
Quero estar pronto para quando
você chegar com seu sorriso,
o carinho das fadas bondosas
e a alegria de que tanto preciso.

Recantos cor de rosa

Quando afago sua pele
sinto o veludo do desejo,
a luxúria delicada da seda
e a simplicidade do algodão.

Quando afago a sua pele,
sinto brotar miúdas flores
antenas de volúpia doce
que são encanto e sedução.

Quando afago a sua pele,
sinto meu corpo deslizar
para recantos cor de rosa,
paraísos de calor e paixão.

Ternura guardada

Meu amor por você é toque,
mas é também lembrança.
É o que minha pele sente,
mas é a ternura guardada,
tudo o que vivemos antes.
Meu amor por você é voraz,
mas é também homenagem.
Você é êxtase e saciedade,
meu desejo de maior prazer
e também amor e felicidade.

Pitanga

Queria te encontrar
debaixo da pitangueira,
te passar com os lábios
a fruta mais vermelha e
pegar de volta a semente
com o azedinho da fruta
e o doce de sua língua.

Teia prateada

Às vezes, quando estou só,
voltam à lembrança trechos
das conversas que tivemos
sobre assuntos que na hora
pareciam tolos, mas que hoje
dão sentido a tudo que vivo.
Éramos um só nas conversas,
a mesma alma procurando
uma saída para o mistério
de estarmos vivos e amando.
Palavras ligavam emoções,
iam de um coração a outro,
tecendo uma teia prateada
que me protegia da solidão.

De volta a 1942

Ao ver que Rick Blaine (Humphrey Bogart) escondeu os salvo-condutos no piano de Sam (Dooley Wilson), o zeloso funcionário do Museu Imperial fez uma busca e encontrou uma carta escondida em 1942 no estofamento de uma cadeira. Era a confissão de um agente nazista de que Stefan Zweig teria sido assassinado para que não aceitasse o convite para interpretar e ridicularizar o Fuhrer como destaque de carro alegórico no desfile de uma escola de samba.
Um comando nazista chegou a Petrópolis e trocou por cianureto as pastilhas de homeopatia que Zweig tomava para combater as frequentes dores de cabeça que o acometiam devido à saudade de Viena. Sua companheira Lotte teria sido uma vítima inocente. Os nazistas não sabiam que ela partilhava as pastilhas.
Zweig estava tentado a aceitar o convite da escola de samba. Era fisicamente parecido com o cabo austríaco que se tornou a encarnação de todos os males passados, presentes e futuros. Zweig só achava que um desfile numa Grande Sociedade teria maior repercussão, porque em 1942, elas eram mais populares do que as escolas de samba. E tinha uma de que ele gostava muito. Chamava-se, bem a propósito, Os Tenentes do Diabo.

Colhendo estrelas

Queria navegar à noite pelo oceano
para recolher na linha do horizonte
as estrelas que caem do firmamento
e com elas criar novas constelações,
destinos para civilizações perdidas,
povoar cantinhos escuros do universo,
acompanhar vagalumes até o infinito,
e enfeitar de cometas os seus cabelos.

Prece noturna

Que a deusa do amor
acalente o teu sono.
Que o amor que sinto
te cubra de mil carícias.
Que o céu que nos une
te leve minha paixão.

Viagem

Acordo assustado
pensando que perdi
o ônibus que levava
até onde você mora.
Saber que é sonho
em nada me alivia.
Queria era saber
se, mesmo que tudo
falhasse na viagem,
você me esperaria.

Sopro de jasmim

O que sou é um caminhar
pela noite infinita,
sob o manto de veludo
cravejado de estrelas,
debaixo das luzes
de diamantes frios e distantes.
Um andarilho sobre a areia,
restos de rochedos,
poeira de montanhas,
envolto pela maresia,
um sopro raro de fruta e jasmim,
tendo você ao lado,
a ternura que balança
em seus cabelos soltos,
e a esperança de encontrar,
numa curva do fim do mundo,
um sol morno, raios rosados,
um brilho sobre o oceano.

Companhia

Quando me deito,
é tua imagem que
cobre meus olhos,
é teu nome que
digo baixinho,
para chamar o
sonho e a paz
que busco acordado.

Pois se durmo
estou contigo,
sinto a companhia
do que há de calmo
nesta vida estranha
em que conheço
apenas você.

Almas doces e gentis

Quando a noite chega,
vêm acalentar meu sono
os anjos que vi na vida,
as almas doces e gentis
que me deram esperança,
aplacaram minhas dores
e me cobriram de carinhos.

No colo dos anjos da vida
minha mente voa longe,
onde os beijos são flores,
cheirando a baunilha e mel
e as palavras são cantigas
sobre os mundos mágicos
onde nascem os amores.

Caravela que o vento leva

Meu desejo é uma caravela
a costear as suas margens
em busca de uma praia de
areias mornas e macias.

Caravela que o vento leva,
entre golfinhos e gaivotas,
o branco inflado das velas
a cavalgar as ondas negras.

Meu porto é luz e calmaria,
teus braços na ponta do cais,
teus cabelos revoltos no ar
e um sorriso de amor à vista.

Porta da escola

Seu sorriso na
saída da escola
iluminava a praça
no sol de meio-dia.
Parecia amor à
primeira vista.
Parecia um acaso,
sorte inesperada,
o encontro marcado
de todos os dias.

Parte do paraíso

Penso em você
em cada momento
da rotina distraída,
quando sinto falta
de segurar sua mão
e imaginar seu sorriso.

Penso em você
para sentir que estou vivo,
para viver como um sonho
e para saber qual é a parte
que me cabe do paraíso.

Pardais

Gosto dos instantes que os pardais
roubam da calçada repleta de gente
para pegar qualquer farelo invisível.

Gosto dos olhos arredondados
com que os gatos enfeitiçam
suas presas de brincadeirinha.

Sou como os pardais castanhos
a viver dos farelos de quase nada
sob os olhares redondos dos gatos
que veem graça no meu destino.

Manto do universo

De todas as formas
que uma nuvem tem,
prefiro a que insinua
neve fina e flutuante,
algodão ou espuma,
colherada de suspiro.

De todas as formas
que uma nuvem tem,
prefiro a que deixa
o céu azul e some,
empurrada pelo vento.

Porque não há forma
branca que se compare
à imensidão imutável
do firmamento, que é
caminho do sol, da lua,
das estrelas e manto do
universo a que pertenço.

Bater de pálpebras

Sol esquivo de montanha,
água que escorre por entre
as pedras lisas do regato,
o amor é o que vi de relance
no olhar das meninas e,
quando olhei de novo,
não estava mais lá.

O amor tem a duração
de um suspiro, um bater
de pálpebras, o movimento
da língua que umedece o lábio
depois de um pesadelo.

Perfil de luar

Quando, ao final de tudo,
eu descer ao solo mais duro,
terei deixado bem alto no céu,
no mais distante dos sonhos,
o teu perfil de luar no caminho,
o rosto que a vida me deu de você.

Porque só você guarda estrelas
na ponta da língua rosada.

Sabiá

Sabiá de canto assobiado,
tua voz de veludo laranja
convida para um dia bom.

Quem dera eu pudesse
te chamar assim bonito
na melodia das manhãs.

E te contar os segredos
do orvalho quando se
deixa iluminar pelo sol.

domingo, 12 de setembro de 2010

Trem Fantasma


Era sempre a mesma coisa: eu insistia com meu avô para ir no Trem Fantasma, mas bastava o carro andar e eu mergulhava o rosto no braço dele para não ver nada. Ouvia os gritos e os rangidos do trem, mas não olhava. Ele ralhava comigo, dizendo que era um desperdício, mas nunca deixava de me levar. Nunca vi um cenário escabroso daqueles, mesmo depois que cresci e me contaram que eram ridículos, de tão infantis. Se não vi os fantasmas quando estava ao lado do meu avô, por que iria vê-los sozinho ou com outras pessoas.
Eu era muito apegado ao meu avô, até o dia em que um outro garoto me deu uma surra. Enquanto escorria sangue do meu nariz, percebi que ele não poderia me proteger de tudo. Na mesma época, vi "Hair" e decidi que queria ver a cara feia do mundo. Encarar de frente tudo que poderia haver de mais horrível nesta vida. Ser uma espécie de hippie, vivendo de raios de sol, flores e música, esperando o carinho da natureza e a fraternidade das pessoas.É claro que não aconteceu nada disso e eu nunca mais fui o mesmo.
A crueldade das pessoas não tem limites e o mundo pode ser um lugar hostil, insuportável, de se viver. Sofri a rejeição não só dos desconhecidos, mas de amigos e até de parentes. Algumas pessoas tentaram me agredir e até matar por ninharias. Vi amigos e parentes se destruindo, depois de sofrerem muito e desistirem de viver. Escapei da morte várias vezes. Algumas vezes, por sorte. Outras, nem sei por quê. Sorte que chegou bem perto de mim, no dia em que deixei de ficar milionário por um algarismo. Perdi amigos e namoradas, perdi o rumo de quem eu era, da pessoa que eu gostaria de ter sido.
Eu preferia não ter visto a cara horrenda do mundo, preferia ter fechado meus olhos para sempre no braço do meu avô. Embarcar no trem fantasma foi mesmo um desperdício: teria aproveitado melhor o meu tempo se tivesse desembarcado na minha paisagem interior.

A primeira vez que vi o seu rosto

Uma simples foto pode desencadear uma série de emoções. Algumas previstas e esperadas, como saudades e nostalgia. Outras, rebeldes e dilacerantes, difíceis de compreender, indomáveis. Estas últimas estão ligadas às armadilhas do tempo, seu jeito de ir e vir, sua forma de lembrar que não somos nada. Ou melhor, somos alguma coisa, mas não aquilo que pensamos ser, aquilo que achamos que controlamos e que é a nossa imagem convencional, nosso cartão de visita perante o mundo. Eu diria que o tempo mostra que somos aquela pessoa aflita, descabelada, com os olhos brilhando de paixão, os lábios entreabertos de perplexidade, que refletiu o momento em que nos demos conta de que perdemos o grande amor de nossas vidas, que deixamos de viver preciosos momentos de felicidade.
A foto que pode nos deixar assim, perdidos no tempo e no espaço, sem uma segunda chance, sem qualquer possibilidade de consertar nossos erros, pode ser a foto que nunca vimos antes de uma antiga namorada. Dá uma vontade imensa de ter estado ali, naquele dia, no momento em que a foto foi tirada, ver o que o fotógrafo viu, sentir o que ele sentiu ao registrar para sempre tanta beleza, tanta paixão, a dor eterna de uma vida tão efêmera, tão frágil, tão passageira.
Vemos na foto a namorada que nunca tínhamos visto e que nunca mais vamos ver. E dá a vontade de viver tudo aquilo, todos os dias em que ela foi assim tão adorável sem a nossa presença. Passamos muito distraídos por esta vida, deixamos de ver e viver o que é importante, procurando em outra parte o que está, ou esteve, ao nosso lado. É duro saber que a primeira vez que vi o seu rosto foi numa foto que me apareceu 40 anos depois.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

A última vez que vi Lara

Yuri Jivago está num bonde quando vê Lara andando na calçada. Ele tenta chamá-la, desce do bonde, corre alguns passos, mas Lara não o vê. Yuri morre na última vez que vê Lara, o amor de sua vida, sua paixão proibida, a mulher para quem escrevia poema numa casa vazia, perdida no gelo da Sibéria. "Dr. Jivago" é um filme de David Lean, o diretor das causas perdidas. Se ele fosse brasileiro e católico, seu santo de devoção seria São Judas Tadeu.
Todos os filmes de David Lean mostram que a vida não faz graça a ninguém. O melhor talvez seja "Desencanto" (Brief Encounter), em que uma mulher casada se apaixona por um médico, também casado, que conheceu numa estação de trens. O romance dura pouco, mas é intenso. Algumas sessões de cinema, muitas xícaras de café, a fuligem da estação de trens. Nada dá certo e eles acabam se separando. Na platéia, pessoas que na vida real condenariam o amor clandestino, torcem para que eles abandonem tudo e peguem o primeiro trem para o terminal mais distante.
A última vez que vi Lara me deu a certeza de que o que mais quero é que seja Lara a minha última visão nesta vida. E que ela esteja com a mão sobre a minha e sorrindo para mim.

domingo, 22 de agosto de 2010

Até um dia, estrelinha!

Numa noite dessas
em que nada acontecia,
vi uma estrela forte,
dessas que noite alguma
esquece ou negligencia,
e resolvi me despedir dela
e das outras que vi um dia.
Abri a janela do quarto
que dá para uma esquina fria
e pisquei algumas vezes
a luz onde me escondia.
Que a estrela lá de cima
tenha visto minha despedida
e que a luz tímida que lhe dei
se incorpore ao seu brilho
e dê sentido a outra vida vazia.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Sonho que amanhece


















No ermo gelado que tudo emudece,
seguindo a sombra da sua ausência,
vejo a chuva que alguma luz reflete,
e me cerco das estrelas do caminho.

Procuro nas folhas secas das árvores
um pedaço de véu, amor desenhado,
as palavras que você deixou no vento,
o beijo que me chegou do passado.

Ergo a voz no manto escuro da noite
e tremo de solidão e arrependimento:
onde andará o sonho que amanhece,
azul glorioso que é você, meu alento?

sábado, 7 de agosto de 2010

Menina de Sagitário












Num verão luminoso
da Era de Aquário,
deixei os meus livros
para seguir feito brisa
a menina de Sagitário.

Era uma flor de tão leve,
pés descalços a flutuar,
e um jeito de colorir a pele
com o dourado do sol
e o movimento do mar.

Dançava com um sorriso
de domingo na floresta
e me falava sobre flores,
mistérios do universo e
de amor como uma festa.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Alma livre




















Escondo-me numa toca
de onde só saio à noite
quando a luz é pouca
e voam livres os sonhos.

A noite é minha casa,
de telhado transparente
para que a luz das estrelas
entre em pequenos focos
de multicores diamantes.

Minha coberta é a brisa
de veludo azul marinho
que alisa o descampado
e faz com que as flores
se inclinem ao seu lado,
balançando de mansinho.

Invento nomes doces
que façam companhia
ao encanto com que
você me surpreende
a cada novo dia.

Nomes de flores raras,
cores que são poesia,
murmúrios da floresta,
passarinhos exibidos
que se chamam alegria.

Por que estás distante,
se meus versos são quietos,
sussurros das águas,
segredos de ribeirinho?