sexta-feira, 26 de março de 2010

Papai Noel em apuros


A maioria das pessoas não sabe distinguir um alce de um caribu ou de uma rena. Isso dá aos romances de mistério escritos por suecos e noruegueses um toque exótico, que talvez explique por que se escreve na Escandinávia o melhor romance policial do momento.
Nas histórias de Henning Mankell, por exemplo, a gente aprende que o verão na Suécia é tão curto que eles aproveitam ao máximo, com a intensidade com que a vida em qualquer lugar deveria ser aproveitada. Eles tiram as roupas e pegam sol na varanda, nos parques, onde der. A maior parte do ano faz frio e as noites são longas. O que pode ser mais noir do que um país que vive quase sempre nas trevas da noite e as pessoas usam máscaras ninja até para ir ao supermercado sem a menor intenção de assaltá-los?
Asa Larsson escreve histórias ambientadas no norte da Suécia, onde é mais frio e mais escuro, quase nos limites da Lapônia, terra onde um povo nômade cria suas renas para ter leite, carne e couro resistente para suas roupas. Larsson conta a história de um religioso que morre olhando para a aurora boreal, um fenômeno que provoca experiências místicas em quem se der ao trabalho de olhar para o céu. As imagens são lindas, dizem, mas fazem pensar que está sempre acontecendo algo no universo e que o fim do mundo está próximo, tem que estar, já que nem as estrelas ficam paradas no lugar.
Nos romances suecos e noruegueses tem sempre alguém atropelando um alce e morrendo. Deve ser algo comum por lá. Isso não aconteceria no Brasil ou na África. Os alces já estariam extintos, de tanto serem abatidos para consumo em churrascos de fim de semana ou para serem vendidos em espetos nas esquinas das grandes cidades.
Karin Alvtegen conta histórias sobre os sem-teto, gente que vive do que cata no lixo e se abriga nos espaços desocupados das grandes cidades. Não existem mais paraísos no planeta. A miséria, a violência e a indiferença chegam até a calota polar. Se as renas não aprenderem a atravessar nas faixas de pedestres, até Papai Noel está correndo perigo.

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