sábado, 13 de fevereiro de 2010

Em favor do Carnaval


A postagem anterior teria sido melhor, sem amargura, se não fosse pela obra que uma loja resolveu fazer em frente à minha casa. Ninguém dorme só porque o dono quer que o trabalho, com 14 pedreiros trabalhando 24 horas por dia, fique pronto até a Quarta-Feira de Cinzas, para não perder nenhum minuto de vendas. Se os fiscais de renda tivessem aqui o mesmo ímpeto com que, em Chicago, pegaram Al Capone, eles fariam uma operação pente fino nestes comerciantes que esbanjam dinheiro só para mudar uma vitrine de lugar.
Mas o que falar em favor do Carnaval? O clima de folia se instalava no dia em que o meu avô levava os seis netos para uma visita à Casa Gallo, perto da estação de trem. Parecia um parque de diversões: fantasias de índio, pirata, cowboy e soldado da Legião Estrangeira, que eram as minhas favoritas. Tinha muitas fantasias para meninas também, mas eu não prestava atenção nelas. Lembro de um ano em que minha irmã e minhas primas se fantasiaram de chinesas. Fizeram até fotos em frente ao Hotel Quitandinha. Tenho que reconhecer que ficou bem mais interessante que o índio fajuta que eu usava.
A Casa Gallo oferecia outros brinquedinhos interessantes: como a embalagem metálica, dourada, de lança-perfume, que deixava a pele gelada. Meus primos gastavam as deles rápido, eu não. Sabia, de tanto ler gibi de faroeste, que munição não pode ser desperdiçada. Minha lança-perfume durava um ano, escondida no armário e quando finalmente acabava eu ficava de coração partido. Meu sonho era ter o armário cheio daquelas embalagens cor de ouro.
O que eu gastava à vontade era a água das bisnagas de plástico. O alvo eram os foliões vestidos de clóvis que passavam em frente ao portão de grade da Rua Souza Franco. A gente também espirrava nos carros que passavam e depois corria para perto do meu avô com cara de quem não fez nada.
Os bailes infantis não eram grande coisa. Lembro do Blecaute cantando com o sorriso simpático e de músicas engraçadas como aquela do "Eu fui dar uma volta no deserto do Saara, o sol estava quente e queimou a minha cara. Alalaô, ôôô, ôôô..." Esta marchinha alegre hoje valeria uma jihad e a ira eterna da Al-Qaeda.
A Casa Gallo tinha toneladas de confete e serpentina. Cada neto ganhava uma cota generosa, mas a gente achava mais divertido catar no chão as serpentinas que não tinham se desenrolado por completo e o confete acumulado com poeira e outros detritos. Esta mistura pouco higiênica era jogada uns nos outros, para desespero dos pais.
Depois tinha o lanche gostoso, sanduíche de queijo ou presunto, no pão de forma com a casca cortada, e guaraná.
Hoje, revendo as fotos, os adultos parecem se divertir mais do que as crianças, mas cumpriram sua missão de passar às novas gerações o gosto pela folia.

3 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

    ResponderExcluir
  2. Que delícia de crônica!!!
    Pura nostalgia!!!

    £una

    ResponderExcluir
  3. Hoje em dia não gosto de Carnaval,mas já adorei.
    Nasci em cidade do interior e,quando adolescente,gostava muito.
    Das fantasias,das paqueras,do carnaval de salão com rei e rainha,cheio de blocos engraçados e fazia a festa,assim como meus pais!!
    SAUDADES DE NAMORAR!!!

    ResponderExcluir