Quando, ao final de tudo,
eu descer ao solo mais duro,
terei deixado bem alto no céu,
no mais distante dos sonhos,
o teu perfil de luar no caminho,
o rosto que a vida me deu de você.
Porque só você guarda estrelas
na ponta da língua rosada.
quinta-feira, 30 de setembro de 2010
Sabiá
Sabiá de canto assobiado,
tua voz de veludo laranja
convida para um dia bom.
Quem dera eu pudesse
te chamar assim bonito
na melodia das manhãs.
E te contar os segredos
do orvalho quando se
deixa iluminar pelo sol.
tua voz de veludo laranja
convida para um dia bom.
Quem dera eu pudesse
te chamar assim bonito
na melodia das manhãs.
E te contar os segredos
do orvalho quando se
deixa iluminar pelo sol.
domingo, 12 de setembro de 2010
Trem Fantasma
Era sempre a mesma coisa: eu insistia com meu avô para ir no Trem Fantasma, mas bastava o carro andar e eu mergulhava o rosto no braço dele para não ver nada. Ouvia os gritos e os rangidos do trem, mas não olhava. Ele ralhava comigo, dizendo que era um desperdício, mas nunca deixava de me levar. Nunca vi um cenário escabroso daqueles, mesmo depois que cresci e me contaram que eram ridículos, de tão infantis. Se não vi os fantasmas quando estava ao lado do meu avô, por que iria vê-los sozinho ou com outras pessoas.
Eu era muito apegado ao meu avô, até o dia em que um outro garoto me deu uma surra. Enquanto escorria sangue do meu nariz, percebi que ele não poderia me proteger de tudo. Na mesma época, vi "Hair" e decidi que queria ver a cara feia do mundo. Encarar de frente tudo que poderia haver de mais horrível nesta vida. Ser uma espécie de hippie, vivendo de raios de sol, flores e música, esperando o carinho da natureza e a fraternidade das pessoas.É claro que não aconteceu nada disso e eu nunca mais fui o mesmo.
A crueldade das pessoas não tem limites e o mundo pode ser um lugar hostil, insuportável, de se viver. Sofri a rejeição não só dos desconhecidos, mas de amigos e até de parentes. Algumas pessoas tentaram me agredir e até matar por ninharias. Vi amigos e parentes se destruindo, depois de sofrerem muito e desistirem de viver. Escapei da morte várias vezes. Algumas vezes, por sorte. Outras, nem sei por quê. Sorte que chegou bem perto de mim, no dia em que deixei de ficar milionário por um algarismo. Perdi amigos e namoradas, perdi o rumo de quem eu era, da pessoa que eu gostaria de ter sido.
Eu preferia não ter visto a cara horrenda do mundo, preferia ter fechado meus olhos para sempre no braço do meu avô. Embarcar no trem fantasma foi mesmo um desperdício: teria aproveitado melhor o meu tempo se tivesse desembarcado na minha paisagem interior.
A primeira vez que vi o seu rosto
Uma simples foto pode desencadear uma série de emoções. Algumas previstas e esperadas, como saudades e nostalgia. Outras, rebeldes e dilacerantes, difíceis de compreender, indomáveis. Estas últimas estão ligadas às armadilhas do tempo, seu jeito de ir e vir, sua forma de lembrar que não somos nada. Ou melhor, somos alguma coisa, mas não aquilo que pensamos ser, aquilo que achamos que controlamos e que é a nossa imagem convencional, nosso cartão de visita perante o mundo. Eu diria que o tempo mostra que somos aquela pessoa aflita, descabelada, com os olhos brilhando de paixão, os lábios entreabertos de perplexidade, que refletiu o momento em que nos demos conta de que perdemos o grande amor de nossas vidas, que deixamos de viver preciosos momentos de felicidade.
A foto que pode nos deixar assim, perdidos no tempo e no espaço, sem uma segunda chance, sem qualquer possibilidade de consertar nossos erros, pode ser a foto que nunca vimos antes de uma antiga namorada. Dá uma vontade imensa de ter estado ali, naquele dia, no momento em que a foto foi tirada, ver o que o fotógrafo viu, sentir o que ele sentiu ao registrar para sempre tanta beleza, tanta paixão, a dor eterna de uma vida tão efêmera, tão frágil, tão passageira.Vemos na foto a namorada que nunca tínhamos visto e que nunca mais vamos ver. E dá a vontade de viver tudo aquilo, todos os dias em que ela foi assim tão adorável sem a nossa presença. Passamos muito distraídos por esta vida, deixamos de ver e viver o que é importante, procurando em outra parte o que está, ou esteve, ao nosso lado. É duro saber que a primeira vez que vi o seu rosto foi numa foto que me apareceu 40 anos depois.
terça-feira, 24 de agosto de 2010
A última vez que vi Lara
Yuri Jivago está num bonde quando vê Lara andando na calçada. Ele tenta chamá-la, desce do bonde, corre alguns passos, mas Lara não o vê. Yuri morre na última vez que vê Lara, o amor de sua vida, sua paixão proibida, a mulher para quem escrevia poema numa casa vazia, perdida no gelo da Sibéria. "Dr. Jivago" é um filme de David Lean, o diretor das causas perdidas. Se ele fosse brasileiro e católico, seu santo de devoção seria São Judas Tadeu.
Todos os filmes de David Lean mostram que a vida não faz graça a ninguém. O melhor talvez seja "Desencanto" (Brief Encounter), em que uma mulher casada se apaixona por um médico, também casado, que conheceu numa estação de trens. O romance dura pouco, mas é intenso. Algumas sessões de cinema, muitas xícaras de café, a fuligem da estação de trens. Nada dá certo e eles acabam se separando. Na platéia, pessoas que na vida real condenariam o amor clandestino, torcem para que eles abandonem tudo e peguem o primeiro trem para o terminal mais distante.
A última vez que vi Lara me deu a certeza de que o que mais quero é que seja Lara a minha última visão nesta vida. E que ela esteja com a mão sobre a minha e sorrindo para mim.
Todos os filmes de David Lean mostram que a vida não faz graça a ninguém. O melhor talvez seja "Desencanto" (Brief Encounter), em que uma mulher casada se apaixona por um médico, também casado, que conheceu numa estação de trens. O romance dura pouco, mas é intenso. Algumas sessões de cinema, muitas xícaras de café, a fuligem da estação de trens. Nada dá certo e eles acabam se separando. Na platéia, pessoas que na vida real condenariam o amor clandestino, torcem para que eles abandonem tudo e peguem o primeiro trem para o terminal mais distante.
A última vez que vi Lara me deu a certeza de que o que mais quero é que seja Lara a minha última visão nesta vida. E que ela esteja com a mão sobre a minha e sorrindo para mim.
domingo, 22 de agosto de 2010
Até um dia, estrelinha!
Numa noite dessas
em que nada acontecia,
vi uma estrela forte,
dessas que noite alguma
esquece ou negligencia,
e resolvi me despedir dela
e das outras que vi um dia.
Abri a janela do quarto
que dá para uma esquina fria
e pisquei algumas vezes
a luz onde me escondia.
Que a estrela lá de cima
tenha visto minha despedida
e que a luz tímida que lhe dei
se incorpore ao seu brilho
e dê sentido a outra vida vazia.
em que nada acontecia,
vi uma estrela forte,
dessas que noite alguma
esquece ou negligencia,
e resolvi me despedir dela
e das outras que vi um dia.
Abri a janela do quarto
que dá para uma esquina fria
e pisquei algumas vezes
a luz onde me escondia.
Que a estrela lá de cima
tenha visto minha despedida
e que a luz tímida que lhe dei
se incorpore ao seu brilho
e dê sentido a outra vida vazia.
sexta-feira, 13 de agosto de 2010
Sonho que amanhece

No ermo gelado que tudo emudece,
seguindo a sombra da sua ausência,
vejo a chuva que alguma luz reflete,
e me cerco das estrelas do caminho.
Procuro nas folhas secas das árvores
um pedaço de véu, amor desenhado,
as palavras que você deixou no vento,
o beijo que me chegou do passado.
Ergo a voz no manto escuro da noite
e tremo de solidão e arrependimento:
onde andará o sonho que amanhece,
azul glorioso que é você, meu alento?
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