
O maior apelo dos romances policiais é se identificar com o detetive incorruptível que é preso, leva surras e tiros, sobrevive na maior pindaíba, passando dias seguidos sem comer ou dormir, se sacrificando para enfrentar os poderosos, as pessoas que colocam o dinheiro e o poder em primeiro lugar na sua escala de valores. "O longo adeus", de Raymond Chandler, um dos melhores romances policiais já escritos, tem todos estes ingredientes. O detetive particular é Philip Marlowe, que simpatiza e sente compaixão por um bêbado, mas não pelas pessoas gananciosas que o cercam, apesar de sóbrias. Segundo Marlowe, "a maioria das pessoas passa pela vida usando metade de sua energia para proteger uma dignidade que nunca tiveram".
Sabemos que colocar o dinheiro como prioridade é errado, que deveríamos amar mais, ser solidários, nos desapegar das coisas materiais, ter compaixão por quem está menos preparado para enfrentar as dificuldades da vida. Mas temos medo de largar o dinheiro e ficar na dependência da ajuda de pessoas ainda menos generosas do que nós. Os detetives particulares idealistas dos romances policiais são uma forma de escapar desse dilema. Eles fazem o que nós gostaríamos de fazer e pagam o preço por isso, um preço que nós não queremos pagar. Poucos estão dispostos a levar uma surra ou um tiro na defesa de seus ideais de justiça. Ficar sem dinheiro, acumular dívidas, não ter o que comer nem onde dormir são situações aterradoras o suficiente. Arriscar a vida, nem pensar.
"Não existe armadilha mais mortal do que a armadilha que a gente arma pra gente mesmo", diz Marlowe. Fazemos nossas escolhas, e temos que enfrentar as consequências. Para acumular dinheiro e poder, temos que fazer vítimas, pisar nos pescoços dos outros, passar por cima de amores e amizades como um rolo compressor, conviver com mentiras e crimes, e com gente da pior espécie, parecidas com os nossos valores.
Viver sem medir as coisas pelo dinheiro é menos complicado, a vida é mais simples, sem grandes confortos, mas com afetos verdadeiros e reconfortantes. Quando a hora chegar, não teremos os melhores médicos nem os melhores hospitais, as filas para atendimento pelo SUS serão grandes e a espera maior ainda. Mas sempre dá para ler um romance policial de segunda mão, comprado baratinho num sebo, e pensar que estamos mais próximos de Philip Marlowe do que das pessoas que ele enfrenta.